Infinitamente absurdo

É absurdo gostar de ti.

É absurdo esperar por ti.

É absurdo querer-te aqui.

É absurdo, tão absurdo,

Infinitamente absurdo.

 

E o que mais me chateia,

Nesta história de absurdidade,

É de me sentir impotente

Face às complicações da mente.

 

Infinitamente absurdo.

Infinitamente.

 

(Neusa) Ariana Soares (Veloso), inédito

 



A quoi pense une girl pendant qu’elle se déshabille, de Bertolt Brecht

Mon sort, c’est, sur cette terre à l’envers,

De servir l’art comme la dernière des servantes,

Afin de donner du plaisir aux messieurs.

Mais si vous demandez

 

Ce que moi, strip-teaseuse, je peux sentir quand je me déshabille

Sous la lumière d’or des projecteurs,

Avec des gestes plein de grace et de malice,

Je réponds: rien.

 

Il va être minuit. J’arriverai trop tard pour l’autobus.

Le fromage est meilleur dans la boutique d’à côté.

La grosse dit qu’elle va se jeter à l’eau.

Lui, il a un couteau.

 

La salle à moitié pleine.Un samedi!Aujourd’hui encore, ce sera un coup de minuit.

Sourire d’avantage. L’air qu’on respire ici, c’est un scandale.

Ferma ta gueule là-devant, je te les montrerai. Des loups!

Comment paierai-je mon loyer?…

J’ai oublié aussi de décommander le lait.

Je ne montrerai mes fesses aujourd’hui.

Je dois pourtant me trémousser un peu. Au Chien jaune

La nourriture est si mauvaise qu’on vomit.

 

Bertolt Brecht, traduit de l’allemand par Gilbert Badia


Retrato, de Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Meireles 


Palavras de prisioneiro (5)

Sobre um sonho que me persegue

Mais uma noite passada

De alma atormentada,

O sonho repete-se.

O mesmo sonho

Que me leva ao desespero.

Acordo sobressaltado:

A todas as portas que eu bato,

Por todos os caminhos que percorro,

Todas as pessoas que encontro e a quem peço uma informação,

Todos me viram as costas e de mim fogem…

Por mais que tente, não os consigo alcançar…

E quando as minhas forças chegam ao fim,

Desse tremendo esforço de os tentar agarrar para saber como me ajudar,

Uma cabeça desprovida de carne aparece no meu caminho, espetada no chão,

E eu acordo aos gritos com uma forte dor no meu coração,

A minha alma a transbordar de emoção…

 

Se alguém disto perceber, me ajude, por favor, a encontrar uma solução

Para aliviar todo este meu sofrimento, minha dor…

 

José Gaspar, Cadeia de Ponta Delgada, Açores, Ano de 1996


Os Loucos, de António Osório

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.

António Osório


Meu fantasma, de Sanio Morgado

Antigamente,

quando escrevia, um

fantasma que não via

me dizia todas as coisas.

 

Hoje, o entendo, leio

seu pensamento e já

não falo nada, escrevo

sempre o que penso.

 

Mas preciso muito

dele ao pé de mim, pois

sinto medo de perdê-lo e

este encanto chegar ao fim.

 

Cada vez mais sinto que sou

este fantasma e que um dia, trocarei

o corpo e minha cara pela dele,

que me carrega e ampara.

 

Sanio Morgado


Traduzir-se, de Ferreira Gullar

 

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

 

Ferreira Gullar

 


 



Elizabeth Gilbert – Sobre nutrir a criatividade

“Doing your best is taking the action because you love it, not because you’re expecting a reward.” , Don Miguel Ruiz


5° Mandamento

Ao fogo lançado pelo barco guerreiro, não lhe lances água, mas vinho, rega-o com o néctar divino.

Neusa Veloso


Como um passarinho, de Olivia Mar

Como um passarinho…voei, voei aos céus
Como um passarinho pequenino…caí, caí do ninho
Fiquei magoada, sem penas, ai…quase sem nada!
Queria voltar…ah, voltar!
Mas o tempo não volta e o relógio não anda p’ra trás
E o tempo, o tempo…é a farsa do pensar.

Olivia Mar (http://oliviamar-voz.blogspot.com.br/)


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